10/02/2017

Resenha: Sombras da Água

Título: Sombras da Água
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535928044
Ano: 2016
Páginas: 384
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Sinopse:

“Sombras da água” retoma a história de Mulheres de cinzas, romance histórico encenado à época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane, o último grande líder do Estado de Gaza, em fins do século XIX. Ferido, o sargento português Germano de Melo é levado ao único hospital de Gaza, sob os cuidados de Imani, sua amada e responsável pelo tiro que lhe esfacelou as mãos, do pai e do irmão da garota africana e de uma amiga italiana. Nesta jornada, eles encontrarão outros percalços e personagens memoráveis — característicos das obras de Mia Couto. Alternando as vozes de Imani e Germano, o escritor apresenta duas visões de mundo diferentes, porém inevitavelmente envolvidas nesta trama.

Resenha anterior:

Resenha:

Resenha sem spoiler do livro anterior.

“Tudo começa sempre com um adeus”, afirma Imani, na presente obra. É exatamente isso que encontramos em Sombras da Água: adeus atrás de adeus e recomeços. Imani e Germano, após os acontecimentos do livro anterior, tentam se reconectar, recomeçar, após um adeus à terra da protagonista. Porém, o caminho para esse contato mais profundo ainda é árduo.

No coração de Imani, ainda arde a angústia de amar um colonizador, um branco, para alguns, até mesmo um inimigo. Para Germano, homem apaixonado até o último fio de cabelo, também restas dúvidas: será Imani realmente apaixonada na mesma proporção que ele? Será ele apenas um passaporte para fora daquela terra?


As angústias e dúvidas unem e minam o casal; a vida real também. A guerra entre Portugal e o Império de Gaza torna-se cada vez mais brutal. Moçambicanos são mortos aos montes; os portugueses também, ainda que em menor proporção. A terra jorra sangue e grita socorro, as mulheres já não sonham em parir crianças, mas armas poderosas para aniquilação do inimigo. Em meio à guerra; a vida clama por um olhar de amor. Passamos, até, “a sentir saudade do tirano anterior”. Mas a vida segue...
“Essa era a triste ironia do nosso tempo: enquanto em desespero procurávamos salvar um soldado branco, a poucos quilômetros dali se instalara um matadouro de milhares de seres humanos” (p. 19).
Um novo adeus é desenhado e redesenhado; novos começos, alguns nublados, outros terríveis, são traçados. “Tudo sempre começa com um adeus”, mas isso não significa que seja bom. Muitas vezes, a vontade é permanecer no passado, no imutável, no estranho que era simples, que o diga Imani e Germano. A vida, porém, é um rio que corre; mesmo com barreiras, segue em frente. 

Por essas linhas, Mia Couto aprofunda o viés romântico de sua obra, mudando de lado a faceta mais poética de sua trilogia. Se no livro anterior a poesia estava no encontro com a cultura moçambicana, aqui está no amor que emana e míngua, que morre e renasce. Apesar das características diferentes, a qualidade é mantida; a genialidade também.


Em Sombras da Água, Couto flerta muito mais com o romance histórico do que no primeiro exemplar; o Reino de Gaza, as lutas, os embates históricos e os personagens icônicos da história moçambicana e portuguesa aqui estão presentes. Com algumas licenças poéticas, o autor traça um retrato bem fiel dos acontecimentos daquela região, dando ao livro um ar de aula de história misturada com encantamento. Aliás, ensina muito mais sobre a história africana do que nossas escolas, ainda tão falhas nesse dever acadêmico.
“Não são apenas terra que os rios atravessam. Este rio por onde viajávamos cruzava territórios de fogo, lavrados pela fome e pelo sangue. Mas havia uma outra distância que a nossa canoa ia vencendo: navegando por entre as espessas florestas a guerra parecia-nos alheia e longínqua” (p. 32).
A narrativa, por sua vez, é feita de forma intercalada, por Germano e Imani. Ele conversa com seu superior através de cartas, dando um aspecto mais documental ao livro. Contudo, em boa parte das vezes, as cartas oficiais também ganham um ar mais confessionário, sentimental, onde Germano esparrama seu amor. Imani, através da narrativa em primeira pessoa, nos dá uma visão única sobre a guerra, cultura e religião. Seus capítulos são os mais interessantes, principalmente por se sentir uma “negra que não é negra”. A abordagem desse lado psicológico dá espaço para muitos questionamentos, inclusive sobre a colonização e aculturação.

Para completar o trabalho maravilhoso, o livro conta com uma excelente parte física. A capa é belíssima e dialoga perfeitamente com o conteúdo do livro; a diagramação, por sua vez, é simples, mas altamente confortável, mantendo o padrão da obra anterior. A revisão está perfeita, assim como o trabalho editorial. Ou seja, temos mais um trabalho com o alto padrão de qualidade da Companhia das Letras.


Diante de tantos aspectos, resta-me apenas indicar essa obra. Mergulhe na série e na história moçambicana; vocês vão se apaixonar por cada detalhe dessa trilogia.
“A música é a língua materna de Deus” (p. 53).


Comentários
18 Comentários

18 comentários:

  1. Mia é sem sombra de dúvidas um dos grandes autores da humanidade, eu ouso dizer!
    Tive que procurar a resenha do primeiro livro e como sou fã de poesia, ainda mais nessa forma tão simples a natural, claro que fiquei babando neste segundo volume também!
    Sem contar que é de outro país, ponto alto. Afinal, vivemos somente baseados em nós ou no que já conhecemos!
    Se puder, lerei com certeza e me emocionarei!
    Beijo

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  2. não li em detalhes pq quero muito ler. adoro esse autor. beijos, pedrita

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  3. De tanto que vc fala de Mia Couto, eu fico morrendo de vontade de conhecer.
    Adorei a resenha ♥

    Bjks

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  4. Oi, Marcos!!
    Estou gostando muito de conhecer um pouco mais das obras do escritor Mia Couto!! Infelizmente, ainda não li nenhum livro da autoria do autor!!
    Beijoss

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  5. Oi Marcos!

    Lembro-me pouco da resenha do primeiro livro, mas como sempre, suas resenhas me deixam mega curiosa! rsrsrsrsrs
    Gostei de saber que o encanto da obra anterior não se perdeu neste volume, ao ntrário, continua firme e forte.
    Já adicionei o primeiro livro na minha lista de desejados e espero lê-lo em breve e gostar tanto quanto vc!

    Bjo bjo^^

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  6. Tenho muito interesse em ler as obras desse autor, e quando vi a resenha do livro anterior, já tinha ficado curiosa, mas esse me deixou com muito mais vontade de conhecer a história. Vou colocar na lista de desejados e espero poder ler logo.

    Abraços :)

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  7. Oi Marcos!!
    Nunca li nada do autor e até pouco tempo nem leria, pois o mantinha a frase "não faz meu tipo" na cabeça...
    mas este ano minhas metas principais são conhecer novos autores e novos gêneros, então com certeza Mia Couto entrou na lista e vou ler pelo menos um livro dele este ano.
    Um fator positivo é que gosto de história africana então este livro já tem um ponto positivo comigo.
    Abraço.

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  8. Olá, Marcos.
    Toda vez que vejo o nome do autor penso que ele é mulher hehe. Lembro da resenha do primeiro livro e que me interessei bastante por ele mesmo não sendo o tipo de livro que eu gosto de ler. E que legal que nesse temos uma aula de história. Gosto muito de livros que ensinam sobre outras culturas e outros países.

    Prefácio

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  9. Olha, gostei desse livro! Parece muito interessante por acabar ensinando coisas sobre a história desses lugares. Adoro quando livros fazem isso sem aquele tom acadêmico que poderia acabar sendo chato ou difícil de absorver.
    E ele tem um jeito romântico, de história que encanta e prende e vai contando as coisas sem se ater só aos fatos, com sentimentos por trás de cada linha. Fiquei curiosa com essa parte das cartas oficiais...
    Deve ser uma ótima leitura.

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  10. Oi Marcos
    Não é de hoje que eu quero ler um livro deste autor, sei que são ótimos, preciso e organizar para ler.

    Beijinhos
    http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  11. Marcos!
    Muitas coisas me atraem para a leitura do livro, a forma poetisada, a versão dos dois protagonistas e a escrita através de cartas.
    DEve ser uma delícia poder ler a autora.
    “O saber é saber que nada se sabe. Este é a definição do verdadeiro conhecimento.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de FEVEREIRO, livros + KIT DE MATERIAL ESCOLAR e 3 ganhadores, participem!

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  12. Conhecia o autor, mas livros de guerra não me atraem, mesmo tendo um romance no fundo. A resenha é boa, mas não me empolguei em ler

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  13. Olá! Não leio muitos romances históricos, ainda mais sendo de guerra, mas achei esse bem interessante esse, ainda mais por se passar em Moçambique, acho que nunca li nada que acontecesse por la.
    Beijo!
    http://booksmanybooks.blogspot.com.br/

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  14. Olá. a obra do autor é curiosas e se trata de um lugar que raramente encontramos nos livros, achei interessante que há personagens de várias etnias na obra. Beijos.

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  15. "Conheci" Mia Couto aqui no blog, mas ainda não li nenhuma obra dele, mas quero muito ler. Gostei muito deste livro, do seu romance, do cenário, realmente conhecemos muito pouco da África. Ótima resenha e dica.
    Abraço!
    A Arte de Escrever

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  16. Humm eu nunca ouvi falar desse autor na minha vida e vi que seus livros tem uma pegada meio que histórica, o que achei legal mas não faz muito meu estilo de leitura e acho que acabaria ficando itendiada com livro. Mas em compensação tenho uma amiga que curte livros assim e irei pedir para ela dar uma olhada na resenha do blog para ver se lhe agrada. Mas obrigada pela resenha.

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  17. Hey,

    Não conheço o autor nem suas obras mas pelos comentários parece ser bem reconhecido, infelizmente pelo que li na resenha esse livro não se enquadra no meu estilo de leitura.

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  18. Oi Marcos!
    Ainda não li nenhuma obra de Mia Couto, tenho mta vontade de conhecer...
    Qro ver se leio em breve.
    Bjs

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