20/08/2017

Desbravando Nós: Saudade


Em meio a tantos livros, abarrotada de anotações e trabalhos, hoje, escrevo a você. Olhando para uma estante cheinha de medos, sonhos, nostalgia e alegrias, hoje, eu escrevo. Escrevo lembrando de cada texto que aqui compartilhamos. De cada lágrima que derramei escrevendo. De cada palavra apagada e reescrita. Escrevo lembrando de cada devaneio, quando, tomada de esperança, acreditei que cada uma das linhas aqui escritas poderiam contribuir, minimamente, para transformar o mundo em um lugar outro. Em um lugar melhor.

Hoje, escrevo com alivio: por ter dito tudo aquilo que as páginas, de tantos livros dos quais falamos, me fizeram sentir. Hoje, escrevo com esperança: de que algum nó em você tenha sido corajosamente desatado, assim como muitos dos meus foram. Hoje, escrevo com saudade: daquilo que, de alguma maneira, construímos no tempo em que essa coluna esteve no ar. Hoje, escrevo com a alegria de quem escrevendo muda a si, mantendo a fé na possibilidade de mudar o mundo.

Hoje, escrevo com os meninos de Conceição Evaristo, na memória. Nosso primeiro encontro foi com eles e seus tantos olhos d’água. E como falar dos meninos de Evaristo sem lembrar do menino Lázaro, o Ramos? Em sua pele, ele compartilhou conosco suas experiências, seus medos, seus desejos... Sua luta por um mundo que rompa, finalmente, com o racismo estrutural. Hoje, se reconheço meu racismo e acredito que posso descontruí-lo é também porque os li. Um nó que juntos desatamos.

Hoje, escrevo com Galeno e sua paixão pela América Latina. Escrevo com a paixão de quem aprendeu a enxergar as mazelas do seu povo sem nunca perder de vista as utopias. Escrevo com um Galeno que escancarou tantos óbvios, que quebrou tantos silêncios. Escrevo com o Galeno que não me deixa esquecer: somos o machismo, somos a corrupção, somos a tortura, somos o racismo. Somos o que for preciso se o nosso privilégio estiver garantido; se o nosso delírio de ambição for possível. Somos isso. Aprendemos a ser. Contudo, não precisamos seguir assim. Se o horizonte se afasta enquanto andamos, que há de mau? Continuemos caminhando até encontrá-lo.

Hoje, escrevo refletindo sobre as mazelas de nossa história: ditadura, tortura, os porões da saúde mental, a educação para o cabresto. Hoje, escrevo para dizer que nada é impossível de mudar.  Escrevo para dizer que para mudar o futuro, precisamos conhecer e reconhecer as mazelas do passado. Escrevo para dizer que a História está cheia de memórias silenciadas. Escrevo para lembrá-la de escutar essas vozes. Vozes do Vasto Mundo, de Maria Valéria Rezende. Vozes dos escravizados, presos e torturados em páginas infelizes da nossa história. Vozes que gritam da Cova 312 e do Holocausto Brasileiro. Vozes que continuam gritando por justiça e por memória. Vozes que silenciamos. Vozes que fingimos não escutar.

 Hoje, escrevo com as crianças, com seus faz-de-conta, com suas histórias que nos encantaram. Escrevo com os medos da Chapeuzinho Amarelo, com a ousadia de Soninha – A Pior Princesa do Mundo. Escrevo com a curiosidade da menina que tinha Mania de Explicação, com a saudade do menino que tinha A Mãe que Chovia. Escrevo com o sonho de, um dia, sermos capazes de, assim como os Nada-a-ver, valorizarmos as diferenças e não as usarmos como razão de discriminações e preconceitos. Escrevo com a Malala no coração, acreditando que as meninas de todo o mundo poderão escrever suas próprias histórias. Escrevo com o furacão das mudanças de Uxa, ora Fada, ora Bruxa. Escrevo acreditando em um mundo que respeite nossas crianças.

Hoje, escrevo ao lado delas. Principalmente delas. Das mulheres, escritoras, personagens, leitoras, que fizeram dessa coluna o diário de uma feminista em construção. O diário de uma mulher cheia de medos, dúvidas, dores e raiva. Uma mulher capinando o terreno do seu corpo colonizado. Uma mulher plantando suas próprias flores. Florescendo. Com você, gritei e arranquei o Papel de Parede Amarelo que me aprisionava. Com você, gritei para que Sejamos todos Feministas e me perguntei o que fazer Para Educar Crianças Feministas. Ao seu lado, mulher, fui todas as Mulheres Desiludidas de Beauvoir, as personagens fascinantes do Manual da Faxineira e fiz-me poeira de constelação com Virgínia Woolf.

Com vocês desatei nós, afrouxei outros e enxerguei a necessidade de encarar tudo aquilo que me impede de ser mais.  Hoje, escrevo com saudade. Saudade de esperar pela chegada dos livros, dos dias em que encarei folhas em brancos sem saber como dizer cada arrepio que senti. Saudade, saudade, saudade. Hoje, escrevo com saudade. É verdade. Contudo, escrevo, principalmente, com gratidão.

Pelos nós desatados, em processo de se desatar e por todos os que ainda virão: um brinde a nós. À literatura. Ao sonho de sermos mais.



Comentários
17 Comentários

17 comentários:

  1. O que dizer depois de um texto belíssimo que me tocou o coração e arrepiou minha alma? Gratidão. Sim, sou grata pela oportunidade de ler algo tão lindo, com uma mensagem riquíssima... Gratidão.
    Já estou aqui sentindo saudades desse blog que conheci há pouco tempo, mas já tenho uma consideração enorme.
    Espetacular, Mariane! 👏👏👏

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  2. "Pelos nós desatados, em processo de se desatar e por todos os que ainda virão: um brinde a nós. À literatura. Ao sonho de sermos mais."
    Tem como sair ilesa depois de ler algo assim? Puxa,sem sombra de dúvidas, o texto mais intenso e repleto de gratidão que já li na vida!!!!
    Que não seja uma despedida, mas sim, até breve!
    Beijo


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  3. Oi, Mariane! Belo texto! É incrível como cada livro que lemos é um tijolinho a mais na construção de nós mesmos, como cada experiência nos agrega algo. Acho que essa é a mensagem que você deixou, e é uma linda mensagem.
    Beijos!

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  4. Que texto maravilhoso, lindo com belas palavras que nos deixam aquecidos e refletindo sobre todas elas. Que nos faz ter fé e acreditar em um mundo melhor ou melhor pessoas melhores e que muitas lutam cada dia por seu espaço e respeito. Muito comovente e mexe com a gente, espero lê mais textos assim por aí.

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  5. Oi Mariane.
    Que texto lindo! Parabéns
    Queria ter a sua delicadeza para escrever textos.
    "Saudade de esperar pela chegada dos livros" é um sentimento que todo leitor sente! *-*
    Bjs

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  6. Oi!
    Como sempre, seus textos emocionam e tocam profundamente o coração.
    Você tem uma grande sensibilidade com o uso das palavras. Siga sempre assim!
    Obrigada por nos proporcionar esses momentos de reflexão.
    Grande abraço!

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  7. Texto lindo mana, eu devo dizer que você deveria ficar muito orgulhosa de ter feito esse texto que toca a alma de todo o leitor e de quem não é também. Obrigada pelo post.

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  8. Mariane!
    Todos os nós desbravados por você e compartilhados conosco, foram importantes eprodutivos, trouxeram alegrias, dúvidas, aprendizado...
    O tom de sua saudade é dolorosa, mas se faz necessária.
    Obrigada por tudo!
    Boa semana!
    "...Aceite com sabedoria o fato de que o caminho está cheio de contradições. Há momentos de alegria e desespero, confiança e falta de fé, mas vale a pena seguir adiante..."(Paulo Coelho)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE AGOSTO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  9. Achei o texto lindo, sigo a teoria da Tabula Rasa, do John Locke, em que a mente humana nasce uma folha em branco e que ela vai sendo preenchida de acordo com nossas experiências, acho que os livros são uma das principais experiências que nos fazem adquirir mais conhecimento, acho que a cada livro lido, é um tijolinho a mais na construção do ser que nos tornamos, enfim, acho seus textos lindos e com certeza vo ficar com saudades de vê-los por aqui.
    Beijos!

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  10. Este seu texto me tocou de forma de que me relembra das leituras de alguns livros que me apresentaram novos conhecimentos, para um realidade antes desconhecida, como por exemplo Holocausto Brasileiro, entre outros dos quais tenho interesse de ler. Com certeza a literatura está dentro da sociedade para desatar nó, e nos abrir nossos olhos pela busca da esperança. Texto maravilhoso, parabéns! Acredito que todos deveriam ler.

    Participe do TOP COMENTARISTA de AGOSTO, para participar e concorrer Ao livro "Dois Mundos", o primeiro da série "Tesouros da Tribo de Dana" da escritora Simone O. Marques, publicado numa edição linda pela Butterfly Editora.
    http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/

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  11. Que texto lindo! Tocante, sensível. Eu tenho muitos nós para desatar, para me livrar, e ser eu mesma.

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  12. Que texto lindo! As leituras sempre nos influenciam, e quando lemos algo assim, enxergamos como podemos melhorar.
    Temos histórias tão diferentes retratadas nesses livros que partes delas se encaixam em algumas situações nossas. Sua maneira de escrever é tocante!
    Bjoxx ♥

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  13. Olá!
    Adorei o texto, muito profundo e você conseguiu se expressar muito bem!
    Consegui me identificar muito!
    Beijos

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  14. Que mensagem mais linda! Muita gratidão por ler esse texto! Muito rico em amor!
    Achei muito profundo! Depois de ler pude perceber que sempre melhoramos a cada livros que lemos!

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  15. Texto muito bacana, nao sei nem bem o que comentar!
    a parte em que voce chega nas mulheres escritoras, you got me right there <3

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  16. Oi, Mariane!!!
    Gostei bastante do texto!! A sua mensagem é linda demais!! "Pelos nós desatados, em processo de se desatar e por todos os que ainda virão: um brinde a nós. À literatura. Ao sonho de sermos mais."
    Bjos

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  17. OI Mari.
    Que lindo esse texto, poder ler e me transportar a um lugar totalmente novo é uma das minhas maiores felicidades, e isso não tem preço, parabéns pelo texto, só li verdades, adorei essa frase. "Pelos nós desatados, em processo de se desatar e por todos os que ainda virão: um brinde a nós. À literatura."

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