13/08/2017

Desbravando Nós: Especial dia dos pais – entre a exaltação e a obrigação


Todo dia é dia dos pais: é um clichê no qual acredito. O meu pai é um típico amigão e palhaço, sempre tivemos uma relação maravilhosa, apesar de nossos inúmeros defeitos. Desde pequena, eu o vejo durante poucas horas do meu dia, mas isso nunca o impediu de estar presente em minha vida, mesmo quando chegou atrasado. O meu pai sempre esteve lá, porém, sinto muito em dizer que isso não o torna um herói. Isso não o torna uma pessoa excepcional.

Nos últimos anos, no dia dos pais, tenho pensado nisto: as obrigações da paternidade. Penso nisso enquanto leio as inúmeras declarações no Facebook, que são lindas, afetuosas e me parecem, por vezes, sinceras. No entanto, há uma coisa que me incomoda: a indicação de que ser um bom pai, presente, carinhoso e amigo é um mérito e não uma obrigação.

Esse discurso reafirma uma das bases estruturais da nossa sociedade: o machismo. Maternidade compulsória, seguida, muitas vezes, de abandono compulsório; dupla, tripla jornada de trabalho, desvalorização do trabalho da mulher... Esse é só o início de uma longa lista sobre o machismo que envolve a maternidade com a áurea de sacrifício e devoção.

A mulher tem obrigação de cuidar de seus filhos. A ajuda masculina é louvada. A mulher deve educar as crianças. Sem pausa. O homem deve trabalhar e descansar em seu tempo livre. Prazer dividido. Responsabilidades empilhadas sobre as mulheres. Quando a lógica é subvertida, os homens ganham aplausos e vivas.

Talvez esta reflexão, no dia em que as pessoas estão apenas preocupadas em homenagear, seja culpa dessa minha perseguição pelo descolonizar do pensamento. Pode ser culpa deste tal feminismo que me faz enxergar as mulheres a minha volta de outra maneira: menos dedos em riste e disputa. Mais empatia, escuta, admiração e afeto. Talvez seja culpa desta percepção menos distorcida das, insistentemente chamadas, mães solteiras, as quais ouvem absurdos ao enfrentar a vida com seus filhos nos braços.

Talvez seja culpa de um olhar mais atento sobre o meu lugar no mundo. Sobre o lugar que destinaram a mim. Talvez seja culpa da minha dificuldade em compreender essa ideia distorcida que transforma obrigações em qualidades; que elege homões, enquanto mulheres se desdobram e são constantemente sentenciadas: a culpa é nossa. 

Meu pai, por muito tempo, disse não saber de onde tirei essas coisas todas, principalmente esse tal de feminismo. Por vezes, ainda me considera moderninha demais. Porém, hoje, sei que, quando ele me olha, reconhece a mulher forte que me tornei; sabe que não lhe cabe podar minhas flores e sonhos. Sabe que ele pode se reconstruir, aprender comigo, ao meu lado.  O que ele talvez não saiba é que, todas as vezes em que me ajudou a regar meus sonhos, ajudou-me, também, a construir a percepção do meu comportamento como mulher, profissional e, quem sabe um dia, mãe. Ajudou a perceber que não devo aceitar nada a menos que o direito de escolher o que quero, sem medo.

Meu pai assumiu a responsabilidade que lhe cabia. Ele quis uma gestação. Não fugiu. Não foi embora. Ele ficou em minha vida e marcou minha trajetória com suas piadas sem graça, seu sorriso meio bobo e com a sua crença em mim, em minhas escolhas.

Meu pai não merece palmas por nada disso. Meu pai merece minha cumplicidade, lealdade, carinho e amor, porque foi isso que sempre me deu. Porque é isso que ele tem me dado ao colocar-se no lugar de ouvinte, de amigo e de parceiro em minhas lutas.

Meu pai não merece aplausos. Ele merece ver de perto meu florescer, por tantas vezes ter-me ajudado a plantar as sementes da minha autonomia e do meu amor próprio: essa é a maior retribuição que posso lhe dar.

Obs.: Revisitei esse texto após dois anos. Na primeira versão, usei essa observação para dizer que meu pai chama-se Doriethison, que ele pergunta se "é pavê ou pacumê" e que ele é um marido e sogro tão afetuoso quanto pai é. Aqui, agradeci por cada momento em que ele transcendeu o espaço de pai e foi tudo o mais que precisei.  Hoje, uso essa pequena observação para dizer que sua tentativa, mesmo quando falha, de entender quem sou e quem me tornei é a maior expressão de paternidade que eu poderia reconhecer. 


Comentários
20 Comentários

20 comentários:

  1. Mariane, que texto belíssimo! 👏👏👏
    Você merece palmas por escrever algo tão sincero, tão real e de uma forma tão rica de sentimentos e delicadeza.
    Não dá pra exaltar pais por tarefas que pertencem a paternidade; só ainda não entenderam que ser pai é mais do que colocar no mundo, e cuidar financeiramente. E quando algo diferente disso acontece, eles se tornam O Modelo. Lamentável que ainda há esta visão.
    Sem delongas, 👏👏👏👏👏 pra você.

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  2. Puxa!!!Quanta sensibilidade e amor em um texto somente!
    Todo pai deveria ter a obrigação hoje e todos os dias, de ler algo assim. De ver não o "trabalho de pai" ser reconhecido, mas sim, o fato de ter sido pai, de ser pai. O que ajuda, o que está ali, o que puxa as orelhas.Que tem falhas e acertos. O pai, simples assim!
    Beijo

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  3. eu fiquei muito feliz quando vi um encarte com sugestões de presentes e tinha um fogão. em geral as sugestões são sempre de produtos eletrônicos, roupas. a mãe q tem sugestões de geladeira, fogão, objetos da cozinha. muito machismo mesmo. fico muito irritada qd dizer q o pai até troca fraldas. nunca falam q a mãe até cozinha. e o marido ajuda. concordo, como se não fosse obrigação. faz quando quer e quando dá na telha. tanto q é comum muitos homens irem beber no bar de manhã, enquanto a mulher prepara o almoço e o homem só chega quando tudo pronto ou depois q todo mundo já comeu e pede pra mulher esquentar a comida. sempre achei um horror. até pq isso nunca foi minha realidade, meu pai sempre participou. então qd descobri q esse péssimo hábito era mais comum que eu imaginava, fiquei chocada, mas ahco q mais chocada ainda qd mulheres disseram q era assim e q nao devíamos contrariar os maridos. oi??? ok, ficar brigando não adianta, mas eu nem me junto a um homem que vive no bar enquanto a mulher cria os filhos e cuida da casa. e concordo. cansei de ver mulheres criando os homens da mesma forma, dividindo o q é para mulher e para o homem. belo texto. parabéns. beijos, pedrita

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  4. Muito lindo o seu texto expressa muitas coisas inclusive gratidão por ter um pai assim que sempre esteve presente pro que der e vier é muito bacana isso. infelizmente nuitos pais não cumprem com suas obrigações de assumir um filho que dirá de estar presente, participar da vida deles e ser companheiro.

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  5. Oi! Parabéns pelo texto e parabéns para o seu pai também pelo dia dele e por ser um paizão pra você. Concordo com você, o reconhecimento que os pais merecem por fazerem o papel de pai é o amor dos filhos e a oportunidade de estar junto deles em todos os momentos.
    Beijos.

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  6. Oi Mari
    Eu não poderia ter lido texto mais honesto que esse hoje. O paizão da porra é só a mãe normal. Acho que está na hora de parar de exaltar a presença masculina como se ela fosse algo facultativo e, quando está ali, é motivo de louvor. Pai é pai e tem que ser pai, assim como mãe faz seu trabalho de mãe. Amei. Eu gosto de pensar que hoje meu pai tem orgulho de mim. Orgulho de mim como filha, como irmã, como esposa e como mãe. Esse último sei que é o que ele mais se orgulha, porque ele vive me dizendo que sou uma ótima mãe para meu pequeno.
    Um beijo grande.

    Vidas em Preto e Branco

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  7. Maravilho esse texto!
    Amo meu pai e não sei como vou viver sem ele quando o mesmo se for!
    Ele e minha mãe são minha alegria, sempre tento ser o melhor para eles!
    Seu texto ficou muito bom, adorei cada palavra.
    Pai é pai! Sou muito orgulhosa do meu!

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  8. Olá, confesso que nunca parei para pensar sob essa perspectiva, mas realmente a cultura patriarcal aparenta estar em todo lugar. Que pais e mães compartilhem do mesmo crédito, pois ambos desempenham funções de destaque. Beijos.

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  9. Oi Mari.
    Que texto lindo, eu em pai a alguns anos não tinhamos um relacionamento muito bom, mas com o passar dos anos foi melhorando e estou muito feliz por isso, enfim adorei.
    Bjs.

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  10. Seu texto além de lindo, e muito auto explicativo, e é fácil se identificar, tanto para quem tem um pai presente, tanto para as pessoas das quais os pais são ausentes. Eu por exemplo perdi meu pai bem cedo com seis anos, ele faleceu, mas minha irmã foi abandonada, o pai assumiu por algum tempo, e depois sumiu e desapareceu da função. A mulher até hoje tem uma obrigação maior de ser mãe e pai, e ao ver isto e algo injusto, ela não tem que exercer a função de PAI, apenas de mãe. Enfim acredito que isto e algo que temos de discutir, e principalmente acabar com este tipo de data comemorativa, pelo menos ao meu ver, pois esta delegações já estão mais que ultrapassadas. Deveria existir o dia da família, cuidador, do amigo.

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  11. Mariane!
    É tão difícil ver o pai participar da criação dos filhos, tarefa 'herdada' pela mãe, que infelizmente as pessoas tem mesmo costume de fazer agradimentos e 'bater palmas' para aqueles que estão mais presentes, nem percebem que é bem como falou, é uma 'obrigação' paterna.
    Linda sua homenagem para seu painho...
    Desejo uma semana de muita luz e paz!
    “Para cultivar a sabedoria, é preciso força interior. Sem crescimento interno, é difícil conquistar a autoconfiança e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica. O impossível torna-se possível com a força de vontade.” (Dalai Lama)
    Cheirinhos
    Rudy
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  12. Oi Mariane.
    Adorei o seu texto.
    A sociedade, infelizmente, ainda é muito machista. Também acredito que é dever do pai ajudar na criação dos filhos e não só prover o sustento da família. Mas acredito que essa visão está mudando aos poucos, com as novas famílias, que não seguem o "padrão" tradicional de antigamente.
    Muito bonita a sua homenagem ao seu pai.
    Bjs

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  13. Miga pisa menos com esse textão que tudo mundo deveria ler pra ver se entra um pouco de conscientização na cabeça. Eu posso dizer que não reclamo do meu pai, ele foi um cara legal no meu processo de criação mas apesar de tudo minha base sempre foi minha mãe que mesmo muito estressada sentava comigo na mesa pra estudar, daí já dá pra ver que aqui em casa a base foi a de muitas famílias a mulher que cuida da criança. Hoje em dia com a minha irmã mais nova meu pai participa mais da vida dela nesse aspecto ele foi forçado a ver que a criação depende dos dois e mão só dá minha mãe. Meus parabéns de novo belo maravilhoso texto.

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  14. Oi, Mariane!
    Que texto maravilhoso!
    Confesso que me incomoda bastante isso de pai ser considerado herói só por fazer o papel de pai, me incomoda bastante essa exaltação de "pais que criam filhos sozinhos", quando o contrário acontece muito e não é visto de forma tão positiva e romântica.
    Amei demais ter lido isso!
    Beijo

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  15. Que texto bacana! Muitas vezes o papel de pai é deixado de lado por essa cultura que vemos em que ele se baseia somente no lado material da paternidade. Seria muito bom se todos os pais soubessem de fato o quão importante e grande é a presença na vida dos filhos. E os filhos também reconhecerem o mérito e não somente numa data comercial.
    Bjoxx ♥

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  16. Oi.
    Lindo texto! Parabéns por sua sensibilidade nas escolhas das palavras e por todo o sentimento que emana dele. Falar de pai é falar de amor! Infelizmente já não tenho mais o meu, ao meu lado. Ame muito o seu e seja amada!
    Grande beijo.

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  17. Oi, Mariane!!
    Gostei bastante das palavras que você colocou aqui no texto. Acho que a sociedade ainda é bem machista e que pensa que a educação dos filhos é de exclusividade da mãe. Bom, parabéns pelo texto!!
    Bjoss

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  18. Olá!
    Adorei o texto!
    Adoro ver pais participativos na educação dos filhos, isso faz toda a diferença para ambos os lados!
    Texto super sincero! Amei!
    Beijos

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  19. Achei o texto super sincero, fico muito feliz que hoje em dia as coisas estejam mudando, vejo muitos homens que participam muito da vida dos filhos, infelizmente ainda existe casos em que os pais preferem deixar toda a responsabilidade para as mulheres, mas vejo que hoje em dia isso diminuiu de uma forma considerável, só uma coisa que discordo de você, é que acho que meu pai merece sim palmas por tudo o que ele fez por mim, pois do mesmo jeito que acho minha mãe um mulherão, acho meu pai um homão e não desmereceria ele por coisas que do mesmo jeito que minha mãe fez por mim, ele também fez.
    Beijos!

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  20. estou atrasada, mas como vc disse, todo dia é dia dos pais! entao parabens à eles!
    reflexao muito interessante sobre os encargos de cada um e as expectativas da sociedade patriarcal!

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