09/07/2017

Desbravando nós: Nos porões da loucura


Porão. Escuridão. Loucura. Você imagina o que é viver enclausurado? Preso? Amarrado? Defecando no chão? Sendo drogado sem nem ao menos ter ideia de qual droga te oferecem? Você imagina a cama fria? As grades nas janelas?

Você imagina o tamanho da violência?

Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez.

Esse foi o número de vezes que Helena Gayer esteve nos porões da loucura brasileira. Esse foi o número de vezes que ela esteve internada em clínicas psiquiátricas. Ou deveríamos dizer que delas foi prisioneira?

Loucos: assim chamamos a todos que têm algum transtorno que não sabemos explicar. Loucos: também usamos, corriqueiramente, para falar de qualquer pessoa que, por segundos, foge de um padrão estabelecido. Loucos? Nós que não pensamos no peso de uma palavra. Na dor que ela carrega para tantos que seguem tentando se achar em si.

Helena foi diagnosticada com transtorno bipolar aos 21 anos. Talvez, se você soubesse as marcas que carrega uma pessoa bipolar, não mais usaria esse transtorno como uma brincadeira clichê. Helena e as pessoas com tal transtorno não enfrentam pequenas alterações de humor ao longo do dia, algo comum a todos. Elas passam de uma fase depressiva à assintomática; de uma fase assintomática à mania. O contrário também acontece.

Depressão e mania: tristeza profunda e euforia máxima. Tristeza e euforia que cegam. O mergulho em dois extremos.

Helena conta, principalmente, sobre seus surtos de mania. A forma como vagava sozinha pela cidade, confiando em qualquer pessoa, sendo por vezes violentada. Violentada de muitas formas: por homens que viam em seu estado de confusão uma chance de transa; por religiosos que nela viam a encarnação de seus demônios; nos olhares tortos e de julgamento que desprezavam sua dor.

Helena conseguiu, com todos seus limites, no seu ritmo, dar cor e tom à vida. Ao seu modo, criou mecanismos de luta onde nós, como sociedade que se crê sã, criamos barreiras. Não desistiu da faculdade de jornalismo. Não desistiu da possibilidade de ingressar numa carreira pública. Ela conseguiu. Porém...

Quantos não conseguem?

Quantos ficam pelo caminho?

Quantos morreram nos porões dos hospitais psiquiátricos?

Quantos continuam morrendo diante de um descanso que não é só deles, dos poderosos, mas nosso, enquanto sociedade civil?

Quantos não sobrevivem para escrever um livro?

Quantos nunca serão capazes de contar suas histórias?

Acredito que, muito além de nos sensibilizar com sua história, Helena nos escreve um manifesto sobre a invisibilidade e sobre a necessidade de nos unirmos aos que lutam contra a constituição cruel e desumana dos manicômios.

Um manifesto sobre a necessidade de sermos donos de nossas próprias histórias, independente de quem somos. Um manifesto sobre a necessidade de lutarmos pelo sonho democrático de que todos também sejam, independente de quem são.


 Referência.

GAYER, Helena. Me diga quem eu sou. São Paulo: Objetiva, 2017.

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Comentários
21 Comentários

21 comentários:

  1. Morreremos e ainda não conseguiremos entender o que é a loucura. Chamamos, ofendemos "louca, louco", sem saber ao certo o que é ser realmente louco.
    Dá um nó na garganta ler o começo da postagem. Será loucura?
    Quero saber mais sobre esse manifesto!
    Beijo

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  2. Tive que ler um livro simular para uma disciplina da graduação, Holocausto Brasileiro, e me causou um desconforto extremo. O pior é ver que mesmo depois da Reforma Psiquiátrica a história se repete com usuários de drogas. Enclausurar porque se longe da sociedade não oferece perigo.
    Gostei da resenha e da dica.

    beijo
    http://eu-ludmilla.blogspot.com.br/

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  3. Bem pesado o assunto desse livro!
    É verdade quando dizem que não conhecemos a loucura, pois sempre pensamos que não é algo sério. Mas a verdade é que é algo muito sério.
    A resenha está muito boa e fiquei querendo ler o livro para conhecer mais sobre o aspecto dessa doença.

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  4. Caramba!
    Esse é um tema que me assusta bastante; mas neste momento sinto uma tristeza e uma dor por todos que se encontram nesse estado, por todos que estão sozinhos em seus pensamentos tentando sobreviver um dia após o outro.
    Evito ao máximo dizer que alguém é louco/maluco (por vezes falho) porque uma atitude mais exagerada não é nada perto do que realmente significa esta palavra.
    Um orgulho imenso por Helena, um orgulho imenso por todos que ainda estão lutando, mesmo que sozinhos. E minha oração, meu desejo de luz a todos que, infelizmente, não suportaram...

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  5. Para estudantes de graduação de psicologia como eu sempre nos deparamos com livros que retratam os hospitais psiquiátricos do Brasil como uma cadeia de tortura, como e retratado no livro Holocausto Brasileiro em Barbacena, a forma horrorosa com que os pacientes eram tratados, e não era só os ditos loucos, homossexuais, mulheres gravidas que eram solteiras. Por isso imagino que esta estória ira me tocar e me fazer senti empatia por esta personagem, já que acredito que muitas pessoas já passaram pela mesma situação.

    Participe do TOP COMENTARISTA de Julho, para participar e concorrer aos livros "O Casal que mora ao lado" e "Paris para um e outros contos".
    http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/

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  6. Mariane que lindo esse livro, gostei mto do enredo e a resenha, fica aquela vontade de ler mais e mais, e claro, mtas reflexões vem na cabeça...
    Adorei!
    Bjs!

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  7. Pesado hein! O cérebro humano é a máquina mais complexa que existe! Impossível passar batido por um relato deste, onde conhecemos o que a ignorância pode fazer com uma vida. Hoje em dia já existem maneiras menos violentas pra tratar desses ' transtornos ' , mas ainda assim estamos longe de dar realmente o que nossas cabeças precisam.
    Ler uma história deste nível nos põe pra refletir o tamanho da ignorância e da covardia que existe em nós.
    Bjoxx ♥♥

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  8. Nossa! Só pela resenha já comecei a refletir, imagino então como deve ser o livro todo. São tantas verdades jogadas na nossa cara, que é impossível não ver com outros olhos. Loucura, uma palavra tão engraçada pra quem adora rir com piadinhas de mal gosto e que quem fala não sente seu verdadeiro peso. Deve ser um livro muito bom, mas também pesado com relatos que ninguém é sequer capaz de imaginar mas que são julgados mesmo assim. Os quotes são muito profundos e traz uma lição de vida de como se encontrar no mundo.
    Beijos

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  9. Oi, Mariane!!
    Nossa que livro mais interessante!! Fiquei aqui chocada com tudo que uma pessoa pode enfrentar... E também como as pessoas podem julgar, maltratar uma pessoa desse jeito!!

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  10. Não consigo nem pensar como deve ser passar um tempo em um manicômio, esse parece ser um livro um pouco pesado e emocionante ao mesmo tempo, nos fazendo pensar se o que pensamos ser loucura, realmente é, ou se estamos tão acostumados a um padrão que quando alguém não se encaixa nesse padrão, julgamos indevidamente.
    Beijos!

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  11. Olá!
    Loucura? Uma palavra bem ultilizada porém sem saber o que realmente significa ela. Gostei do livro, bem interessante como Helena conta sobre suas forma de fala de transtorno e depresao. Agora como e viver dentro de um manicômio? Com certeza algo sem fim, doloroso demais.

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  12. Realmente, a história deste livro nos faz refletir, Helena conseguiu cursar sua faculdade, ir atrás dos seus sonhos, mas quantas pessoas não conseguem!
    Sem dúvidas pretendo ler este livro.

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  13. Mariane!
    Quanto sofrimento ela deve ter vivido dentro da sua bipolaridade, nas internações e fico feliz em ver que ela foi brava, lutou contra tudo e foi em busca dos seus objetivos de vida, atrás de uma profissão e escreveu o livro contando sua história. Coraggem, né?
    Uma maravilhosa semana!
    “Todo homem, por natureza, quer saber.” (Aristóteles)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  14. Olá!
    Ainda não conhecia o livro e amei a premissa!
    Adoro quando o livro nos traz esses questionamentos e reflexões sobre "loucura". É um tema super importante <3
    Também amei a capa, acho que ela consegue transmitir bem o conteúdo do livro
    Beijos

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  15. Oi Mariane, tudo bem?
    Não conhecia o livro e achei a premissa bem forte, sem dúvidas é um livro que quero muito ler, gostei muito do seu post, tocante.

    Obrigada pelo carinho. Um super beijo :*
    Claris - Plasticodelic

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  16. Caramba, parece um livro excelente.
    Tenho até medo de passar aqui porque minha lista de livros sempre aumenta.
    Bipolaridade é algo sério e infelizmente qualquer doença a sociedade trata com descaso.
    Estou ansiosa para ler tal livro.

    Corre lá no My Life que ta rolando a Promoção 101 e não é bicho de sete cabeças, basta indicar um blog para assim nos inteirarmos mais na blogsfera. Cola lá para entender melhor.
    Abraço!
    https://mylife-rapha.blogspot.com.br/2017/07/101-blogs.html

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  17. Olá! Adorei a resenha. É um tema forte, pesado, mas super necessário. "Loucura" não existe, existem doenças psicológicas e psiquiátricas que precisam de tratamento adequado sim, não de internação em sanatório. Aliás, que lugar cruel e repugnante é um manicômio, que tratamento desumano os pacientes recebem, constantemente dopados. É uma ótima indicação de livro pra vermos a realidade difícil que essas pessoas enfrentam.

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  18. Que grande exemplo, pois deve ter sido uma tortura o que ela passou e uma agonia, mas ainda bem que ela conseguiu dar a volta por cima, deve ser uma leitura que mexe muito com a gente e nos deixa pensando sobre essa doença e o que a pessoa sofre.

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  19. Não gosto muito de livros assim, mas acho interessante tratar deste assunto. A depressão e ser bipolar não é brincadeira e nem deve ser ignorada, devemos olhar com mais atenção e cuidado, pois ultimamente tem crescido bastante. Gostei da ideia do livro, mas acho que não leria.

    Visitem meu blog!
    http://garotaeraumavez.blogspot.com.br
    Obrigada!

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  20. Que tema pesaaado !!! Ultimamente tenho visto muito livros assim e fico vendo o quanto isso é mais comum do que percebemos, realmente muita gente fala " nossa você é muito bipolar, de um dia é uma coiss depois do nada muda" e falam isso sem saber realmente o significado da palavra, da doença, que é bem mais que isso. Acho que é um livro que todos precisam ler e entender que não é algo que se brinca, que é algo sério, que é algo doloroso, que é algo que ngm merece passar. Parece ser um livro nu e cru e que chega a nos assustar. Espero ter a oportunidade de ler apesar de ficar meio receosa pelo assunto.

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