04/05/2017

Resenha: Resistência

Título: Resistência
Autora: Affinity Konar
Editora: Fábrica 231
ISBN: 9788595170049
Ano: 2017
Páginas: 320
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Sinopse:

 “Resistência” narra a trajetória de duas irmãs gêmeas lutando pela sobrevivência na Segunda Guerra Mundial. Pearl e Stasha chegam a Auschwitz em 1944 e ainda vivem sob o encantamento da infância – têm uma conexão muito forte, se entendem, se confortam e brincam juntas. Como parte de um experimento chamado Zoológico de Mengele, as irmãs conhecem o horror e têm suas identidades fraturadas pela dor e pelo sofrimento. No inverno, Pearl desaparece; Stasha chora pela irmã, mas mantém a esperança de encontrá-la viva. Ao final do conflito, Stasha se depara com um mundo em ruínas, uma Polônia devastada pela guerra, e tenta reconstruir sua vida a partir dali. Romance narrado com uma voz poderosa e única, Resistência desafia qualquer expectativa ao atravessar um dos períodos mais devastadores da história contemporânea e mostrar que há beleza e esperança até diante do caos e ganhou elogios da crítica e de autores como Anthony Doerr, de Toda luz que não podemos ver.

Resenha:

Não sei nem por onde começar a falar deste livro, uma história tão dolorosamente marcante que leria muitas vezes, não por ser triste e tratar apenas sobre o Holocausto, mas por ver a resistência das pessoas que sobreviveram e das que, infelizmente, não conseguiram escapar. Prepara-se, pois a seguir terá fortes emoções.

Stasha e Pearl, junto com sua família, estão fugindo das perseguições nazistas, embarcando em veículos ilegais e sendo ajudados por grupos de resistências, entretanto, em uma de suas fugas, as gêmeas acabam sendo levadas por um médico que se autodenomina “Tio Médico” e promete que salvará a vida de sua família e que teriam uma vida melhor se fossem com ele. Inevitavelmente, tudo não passou de ilusão e as garotas acabam em um campo de concentração de Auschwitz.

O horror logo se instala quando as garotas percebem que todos os outros prisioneiros são crianças gêmeas, trigêmeas e assim por diante; quaisquer irmãos ou irmãs que fossem parecidos eram alvo das macabras experiências de Joseph Mengele, também chamado de Anjo da Morte.

Alternando entre as duas irmãs, Stasha fica encarregada de narrar o presente e futuro, o divertimento e o mau, já Pearl fica com o passado, tristeza e o bom. A narrativa de ambas mostra o fardo, medo, terror, a perda da ingenuidade, infância, a felicidade e tantos outros sentimentos, sensações e emoções que o ser humano têm, sendo retiradas de suas vidas de uma forma lenta e cruel.

Ler sobre os experimentos que as crianças eram submetidas era doloroso e ficava sentindo-me impotente; ademais, ler os relatos na visão de uma criança era mil vez pior e absurdamente triste. Como era possível existir pessoas que transformavam crianças, cri-an-ças, em cobaias e/ou matavam-nas por causa de sua cor de pele, uma deformidade, ser contrária à opinião dos alemães e principalmente por ser judeu ou cigano? Qualquer um que não fosse descendente de ariano deveria sofrer.
“Nem sempre nos conhecemos, ou sabemos em que vamos nos transformar, o que podemos fazer, depois que o mal fez o que quis conosco” (p. 284).

Stasha e Pearl são gêmeas idênticas e com uma conexão muito forte: conseguem sentir a dor uma da outra, ler os pensamentos de cada uma, de falar em uníssono e tantas outras formas que só elas eram capazes de explicar. Tudo era feito em conjunto, em dupla, mas, à medida que passavam nas mãos do terrível Mengele essa conexão enfraquecia e seus destinos mudavam.
“– Um dia – disse para o meu o meu amigo –, matar não será mais necessário. Porque isso acabará.– O mundo? – Paciente franziu o cenho.– Não, a guerra – eu disse – A guerra vai acabar” (p. 89).
Quando Pearl desaparece, Stasha mantém a esperança e perseverança de que sua irmã vai voltar e que não foi abandonada em uma vala ou tirada de sua vida de propósito. O Tio Médico garantiu que ela encontraria sua irmã outra vez e sendo uma menina obediente faria tudo que o Doutor mandasse.

A linguagem utilizada ameniza um pouco o cenário de puro sofrimento, mas não deixa de mostrar a miséria, tortura, maldade e o desamparo dos personagens, muitos perdiam seus irmãos para as doenças ou para as experiências de Mengele. A violência não é velada, entretanto, não é tão intensa se fosse contada por um adulto. Entretanto, é triste ler o que as crianças passavam, o desespero em tentar sobreviver não apenas das experiências, mas também das insalubridades que eram impostas.
“Ele era frio e vazio e não era capaz de formar elos com ninguém, nem com sua família, nem mulher, nem filhos. Tudo que havia nele era ambição e esse homem vazio, como tantos homens vazios, estava determinado afazer história” (p. 229).

A selvageria de Mengele em praticar atos tão desumanos era desmedida, as crianças eram cobaias ou simplesmente alvejadas e mortas como alguns adultos, grávidas tinham os órgãos removidos, anões eram dissecados ou mortos por outros tipos de morte que abstenho-me de comentar. Só saiba que é horrível de ler e imaginar, fiquei com o coração apertado por sentir um pouco o sofrimento e dor dessas pessoas.


“Em Auschwitz, não é preciso ter nascido para sofrer tortura” (p. 278), o Anjo da Morte inventava sempre um novo assassinato; fiquei incrédula e horrorizada com as atrocidades cometidas pelo Mengele e mais ruim é vê-lo acreditar que está fazendo um “bem” e que é tudo em nome da ciência. Claramente uma pessoa sádica e doente que não tinha escrúpulos e não merecia viver para fazer tanto mal.
“[...] a hora do sobrevivente é diferente de qualquer outra, cada minuto corresponde a uma história que não será modificada e nem restaurada, nem tornada suportável” (p. 277).
A resistência das crianças em tentar sobreviver e proteger seu(s) único(s) parente(s) é notável, as condições precárias em que viviam eram desumanas e árduas. Percebiam, de uma forma injusta e brutal, que eram impostas aquelas torturas apenas por terem nascidos gêmeos e conheciam o racismo e preconceito de um jeito hediondo.
“Meu perdão era uma repetição constante, o reconhecimento do fato de que eu ainda estava viva. Era prova de que as experiências deles, seus números, suas amostras não tinham servido para nada  – eu resisti, como um tributo ao erro de avaliação deles, do quanto uma menina é capaz de suportar. No meu perdão, o fracasso deles me matar ficava patente” (p. 262).
Ao finalizar a história, meu coração apertou-se e as lágrimas fluíram sem controle por sentir o peso e dor das pessoas que passaram por isso; acho que não houve um período na História tão desumano quanto o Holocausto. As lágrimas que derramei foram poucas para demonstrar o quanto sinto e admiro dessas pessoas, principalmente as que sobreviveram das garras de Mengele e tantos outros iguais a ele; essas pessoas não apenas sobreviventes, são heróis, inspirações e a prova viva da esperança e não há palavras que possam expressar o que foi ler essa história tão comovente.

Resistência é uma leitura tocante, delicada e perturbadoramente bela sobre o Holocausto e suas marcas que poucos conhecem.


O livro é inspirado na história real das irmãs Eva e Miriam Mozes, que sobreviveram a Auschwitz. Infelizmente, Mengele também sobreviveu e fugiu por décadas, chegando a morar no Brasil, mais precisamente São Paulo, e só morreu em 1979, aos 67 anos, afogado na praia.

A Fábrica 231 não deixou a desejar, a capa é mais bonita do que a original e representa bem a essência do livro. A tradução da Alyda Sauer está excelente, a revisão ótima e a diagramação confortável e leve. Mas, infelizmente, meu exemplar veio amassado devido ao belo serviço prestado pelos Correios. 

De toda forma, essa é uma obra indispensável na estante de qualquer leitor.


Comentários
15 Comentários

15 comentários:

  1. Eu tenho uma fascínio enorme por livros que trazem esse tema. Não por gostar,mas por inserirem esse sentimento de revolta,tristeza..em quem está lendo. Já li muitos livros sobre o tema,mas ainda não conhecia este. E sendo bem sincera, preciso para ontem!!! O horror dos campos de concentração..sei lá, parece que mesmo depois de tanto tempo, ainda há o que ser contado e mostrado.
    Vai para a lista de desejados agora!
    Beijo

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  2. Oii Thais, que resenha linda!!
    Acho que é a segunda que leio do livro, mto lindo esse enredo, preciso conhecer pra ontem!
    Bjs!!

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    1. Oi, Aline!!! Tudo bem?
      Fico sempre muito feliz quando leio comentários tão carinhosos como o seu, muito obrigada pelo comentário e apoio e espero que possa ler em breve essa história tão linda.

      Beijos

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  3. Oie, livros que tratam sobre casos da Segunda Guerra Mundial me encantam e este sem dúvidas e mais um que vou querer ler, além de ter essa capa linda, possui uma historia marcante. Adorei sua resenha
    Beijo
    http://dicasdaisacereser.blogspot.com.br

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  4. Gosto muito de livros que usam esses tempos como pano de fundo, que falam mais do assunto e das barbaridades que ocorreram. Foi um tempo sombrio da nossa história e acho importante saber o máximo possível, isso sempre me fascinou. Mas tá aí um livro que fiquei até sem coragem pra ler de tão ruim que a história é. Não ruim de mal feita, porque parece ser muito bom nesse aspecto, mas ruim de dolorosa de ler. Os temas...pensar em crianças então? Aquelas coisas todas? Ter uma ideia de como era, quase sentir o que elas passavam...Ah, o coração chega a apertar. Tanta miséria e sofrimento pra alguém tão jovem...se com um livro de adultos passando por coisas assim naqueles tempos já fico agoniada nem imagino como seria ver isso por uma criança. E pensar que esse tipo de coisa ocorreu...
    Mas é um livro que no momento certo acho que gostaria sim de ler. A trama parece muito impactante.

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  5. Olá,
    Nunca pensei que esse livro falaria desse tema, uma trama muito envolvente, com certeza tem historia nesse livro que realmente irá tocar a mim e minha propia mente. Olha, serio mesmo, nem eu mesma sei o que fala desse livro porque sua resenha me tocou muito, eu realmente preciso ler esse livro, se antes já queria, agora quero muito mais!

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  6. Oi.
    Gosto muito de ler sobre esse tema, como também assistir filmes. Mas, é um sofrimento tão absurdo, que não tem como não se emocionar e sentir o coração apertado. Só resta a reflexão e um pensamento elevado a uma força maior.
    Linda resenha, parabéns.
    Beijos.

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  7. Parece uma ótima indicação, mas também um livro daqueles beeeeem pesados!
    Gosto muito de ler livros com esse tema, inclusive já li o de Anthony Doerr que foi citado e adorei! Muito bem escrito e uma estória que prende.
    Esse vai para a minha lista :3

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  8. Olá, Thaís

    Acho essa capa maravilhosa, e acho a história muito interessante. Achei bem legal essa divisão da narrativa entre as irmãs e me vi aqui curiosa para saber porque Pearl desaparece, mas não leria o livro. Não curto histórias sobre guerra, holocausto, nem nada do tipo. Mesmo o livro possuindo uma linguagem mais leve, ele me faria mais mal do que bem.

    Beijos
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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  9. Oi Thaís!
    Livros que contam um pouco sobre como era o ambiente nesse período da história da humanidade, sempre chamam minha atenção. É surpreendente o ponto em que o ser humano pode chegar. Acredito que não seja uma leitura para qualquer um, por ser meio pesado. Mas com certeza vale a pena.
    Beijokas
    Quanto Mais Livros Melhor

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  10. Thaís!
    Gosto demais de livros baseados em fatos reais, principalmente da época do Holocausto, porque foi muita dor e sofrimento que eles passaram e não consigo nem imaginar.
    Agradeço diariamente por não ter vivido àquela época, porque foram muitas as atrocidades.
    “A juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar.” (Jean-Jacques Rousseau)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP COMENTARISTA MAIO 3 livros, 3 ganhadores, participem!

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  11. Oi Thais.
    Eu adoro livro que que se passam nesse período tão Sombrio da nossa história como a Segunda Guerra Mundial e o fato do livro ser baseado em uma história real é ainda mais impressionante eu amei essa capa e preciso ler este livro com toda certeza.
    Bjs.

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  12. Boa tarde, Thais!
    Livros que se passam na 2ª Guerra sempre me atraem bastante. Não conhecia este e realmente me interessei bastante pelo mesmo. Parece ser um livro belo, delicado e forte, pesado, ao mesmo tempo. A narração também aparenta possuir uma originalidade tocante. Me interessei bastante, mas acho que não tenho estabilidade emocional para lê-lo no momento rsrs.
    Abraços!

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  13. Eu li poucos livros que falam sobre o holocausto, o que é um erro gigante porque esse acontecimento terrível inspirou muitas obras encantadoras. Esse livro me chamou a atenção pela capa que, convenhamos, é LINDA PRA CARALHO <3 Mas pela resenha, parece ser mais um bom livro. E AINDA É INSPIRADO, o que deixa a coisa toda com mais vontade de a gente ficar desidratado.

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  14. Oi, Thais!!
    Nossa fiquei bem chocada por ler essa resenha do livro, até aonde vai a maldade humana!! A capa é linda e pelo que vi a edição é perfeita mais o tema sobre o Holocausto e bem pesado e não sei se teria coragem para ler no momento esse livro!!
    Bjoss

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