19/03/2017

Desbravando Nós: A cova e o holocausto


Lágrimas. Arrancá-las de nossos olhos é uma das façanhas mais intensas da literatura. Lágrimas, que muitas vezes não saem dos olhos, porém, inundam a alma, são a prova dos resquícios de humanidade em nós. Lágrimas e literatura: esperança e humanidade. Foram esses os sentimentos que transbordaram de meus olhos, do meu corpo, da minha alma, enquanto o balançar do ônibus seguia seu caminho. A humanidade incontrolável que saía dos olhos. A cova e o holocausto em mim.

Daniela Arbex é jornalista. Defensora dos direitos humanos, passou a carreia em busca de histórias que ajudassem a lembrar nossa desumanidade. Nesse caminho, encontrou, no Brasil, covas e holocaustos. Os sacrifícios feitos em nome da velha e desgastada política, em nome do poder e do capital. Nesse caminho, encontrou milhões de leitores, que, hoje, como eu, são abrigo de sombrias histórias reais. História nossa. História a ser lembrada aos que insistem em esquecê-la. História de dor e desesperança.

Na cova 312 jaz Milton Soares de Castro. Morto todos os dias no coração de uma mãe que faleceu a espera de encontrar o corpo do filho. Na cova 312, jaz os sonhos de um homem que acreditou numa revolução de ideais. Um homem massacrado pela tortura institucionalizada na ditadura militar. Um homem sem o direito de morrer em paz. Sem o direito do adeus. Acusado de suicídio, quando todos tinham certeza do óbvio: havia sido assassinado. Na cova 312 jaz Milton Soares de Castro. Uma cova entre tantas que a nossa ditadura deixou para trás: sem lápide, epitáfio ou flores.

No Colônia, palco do que Arbex chama de holocausto, pela similaridade com os campos de concentração, jazem 60 mil mortos. Funcionando como nunca, também no período ditatorial, o “trem de louco” despejava os incômodos sociais no maior hospício do país.  70% não possuía diagnóstico de doença mental. Contudo, saíram de lá com algum transtorno ou mortos. Para terminar no Colônia, bastava ser epilético, alcoólatra, homossexual, prostituta, uma menina que perdeu a virgindade antes do casamento ou que foi estuprada por um homem de poder. Para acabar no Colônia, onde não havia cama, cobertor ou água potável, era só incomodar alguém com poder.

Cárcere. Cova 312 e Holocausto Brasileira são livros sobre o cárcere. Sobre os porões da ditatura, sobre os porões da saúde mental. Sobre os porões da nossa humanidade. A ditatura e sua tortura não resistiriam por tantos anos sem o consentimento da sociedade. Colônia e seu extermínio não continuariam de pé sem o silêncio negligente. Os genocídios e atrocidades que hoje se perpetuam contra a juventude negra e pobre, contra a comunidade LGBT ou contra as mulheres só se perpetuam porque nos calamos, fingimos não ver. Elegemos e defendemos quem defende e financia o massacre.

Lágrimas. Com elas iniciei esse texto, com elas eu me despeço. Arrancá-las de nossos olhos é uma das façanhas mais intensas da literatura. Uma façanha que, romanceando a realidade, Daniela Arbex, por tantas vezes, durante uma semana de leituras, fez-me experimentar. A tortura foi real. O desaparecimento foi real. A desumanidade continua sendo real. Porém, ainda há esperança: torturados que dedicam suas vidas à manutenção da democracia, mulheres que, mesmo com suas cicatrizes, buscam fazer do mundo um lugar humanizado. Gente que continua sonhando.

Lágrimas. Elas são, também, o resultado de um memorial.

“E se centenas de brasileiros tiveram suas vozes silenciadas, nós continuaremos a lembra-los, um a um, falando em seus nomes.
– Milton Soares de Castro!
– PRESENTE”. (Cova 312, p. 342)

Os esquecidos vivem. Suas histórias resistem em nós!

Referências:

ARBEX, Daniela. Cova 312. São Paulo: Geração Editorial, 2015.
__. Holocausto Brasileiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013.

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Comentários
7 Comentários

7 comentários:

  1. Falar ou ler sobre o Holocausto é coisa que só os fortes conseguem. Cada livro que sai, parece que ainda é pouco para tentar ao menos, nos fazer entender um pouco, sobre todo este caos que muitos de nós, humanos, vivemos na pele. E por mais que tentemos isso, nunca conseguiremos chegar perto da dor, do sofrimento e da desumanidade que aconteceu.
    Ainda não conhecia este livro, mas estou aqui, com um nó na garganta e louca para ler e com isso, me emocionar também!
    Beijo

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  2. Nossa uma história contada como eram difíceis essa época em que tantos sofreram conhecer um pouco da história do país o quanto de inocentes morreram sem ao menos se defender, muito triste porém um livro com uma grande história.
    Até mais!!!

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  3. Mariane!
    Nem sabia que havia tido tanta desgraça aqui no Brasil, sendo comparada ao do Holocausto.
    Para quem gosta de história como eu, gostaria mesmo de fazer a leitura do livro e acompanhar todo o drama e tristeza que as páginas carregam.
    “Não ganhe o mundo e perca sua alma; sabedoria é melhor que prata e ouro.” (Bob Marley)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

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  4. Muitas dificuldades, tristezas, mas faz parte conhecermos o passado. As imagens são mesmo fortes, mas o enredo parece muito bom.

    www.mecontanoblog.com

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  5. O Golpe Militar no Brasil representou uma tragédia sem tamanho. Pessoas desaparecidas; outras, eternamente traumatizadas por torturas intensas. Um desgoverno brutal, regido pelo ódio e pela ganância das altas classes sociais. Uma tristeza e por isso merece ser estudado. Redescobrir a história é mudar a sociedade.
    Já em relação à Barbacena, eu desconhecia por completo, o que é chocante. Atrocidades desse tamanho deveriam ser divulgadas; o conhecimento liberta e evita a repetição.
    Não conhecia as obras da Arbex, sua postagem abriu meus olhos. Quero ler, principalmente, Holocausto Brasileiro.
    Parabéns à Geração pela coragem de publicar esses livros e a você por fazer uma postagem tão intensa.

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  6. Este livro está na minha lista de desejados. Um livro assim nos faz pensar em como o ser humano é cruel e como nosso país não se safa desta tamanha crueldade. Uma ótima dica e um excelente texto.
    Abraço!
    A Arte de Escrever

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  7. Oi, Mariane!!
    Que livro com o tema mais forte!! E difícil ler qualquer coisa que fale sobre o holocausto e não se emocionar!! O livro certamente é uma excelente indicação de leitura.
    Beijoss

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