04/02/2017

Resenha: Vidas Secas

Título Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Edição: 109
Editora: Record
ISBN: 9788501067340
Ano: 2009
Páginas: 176
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Sinopse:

O que impulsiona os personagens é a seca, áspera e cruel, e paradoxalmente a ligação telúrica, afetiva, que expõe naqueles seres em retirada, à procura de meios de sobrevivência e um futuro. Apesar desse sentimento de transbordante solidariedade e compaixão com que a narrativa acompanha a miúda saga do vaqueiro Fabiano e sua gente, o autor contou: "Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão... os meus personagens são quase selvagens... pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer ...porque comumente não são familiares com o ambiente que descrevem...Fiz o livrinho sem paisagens, sem diálogos. E sem amor. A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não tem tempo de abraçar-se. Até a cachorra [Baleia] é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos". VIDAS SECAS é o livro em que Graciliano, visto como antipoético e anti-sonhador por excelência, consegue atingir, com o rigor do texto que tanto prezava, um estado maior de poesia.

Obra do autor anteriormente resenhada:

Resenha:

“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”, afirmava Graciliano Ramos. Em Vidas Secas, encontramos essa premissa levada ao máximo, gerando uma obra enxuta, seca, como as vidas, como o Sertão. As palavras são feitas para dizer, assim como a vida é feita para viver. Porém, o que é viver? Há vida em meio à seca?

Nesta obra, acompanhamos a vida de Fabiano, que, juntamente como a sua família, perambula pelo Sertão em busca de uma qualidade de vida melhor. A seca se reflete em sua alma e na vida de sua família; magros, com fome, com cansaço, com dor. Ao encontrarem um abrigo, a felicidade aparece, ou melhor, um entusiasmo momentâneo. Afinal, a felicidade parece já ter mudado para outras bandas, onde a chuva a rega.


Estabelecendo uma nova moradia, somos levados a conhecer um pouco mais do cotidiano dessa família: Fabiano, o bicho-homem, forte e decidido, querendo um pouco mais para os seus e cuidar dos bichos para ganhar dinheiro; Sinha Vitória, uma esposa respeitável, que sonha em ter uma cama confortável para repousar à noite; os dois filhos, o mais velho e o mais novo, com sua sede de conhecimento, com o medo das pancadas, com a dor de só ver morte ao redor; e Baleia, a cadela que derrete corações, sendo valorosa.
“– Você é um bicho, Fabiano. – Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer as dificuldades” (p. 19).
Através desses personagens, gente comum, sofrida, encontramos a vívida imagem da desigualdade social, da dor, da vida à margem, da seca que devora tudo e da enchente que tudo devora. A educação e a saúde são inexistentes; vemos também o governo e a polícia que só aparecem para agredir e cobrar impostos. Uma vida de cão, mas uma vida tão parecida com a de milhares de brasileiros.

Com uma linguagem simples, direta, ressequida como o chão que Fabiano pisa, Graciliano vai esfregando na face do leitor a realidade social do Brasil; o tom da obra é reflexivo, levando-nos a imaginar as dificuldades passadas e analisar o que mudou desde os anos 30 no Brasil. O olhar mais psicológico também é abordado, apresentando os dilemas dos protagonistas, as suas ansiedades e suas dores, sem deixar, é claro, de dar também o foco necessário no ambiente que cerca Fabiano e a sua família.


A tentativa de entender o mundo a sua volta, porém, não é apenas do leitor, mas também de Fabiano. Por muitas vezes ele se questiona porque o mundo é desta forma, repleta de gente explorada, agredida; repleta de morte e dor. Por que o governo, omisso, só aparece para comer-lhe as economias? Se ele cria o porco, cuida, alimenta, sustenta, não faz sentido, na hora da venda, der que perder parte do porco para as autoridades. É melhor não criar porco, essa é a conclusão do protagonista, já que o pouco que se tem, que se luta, é roubado.
“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha” (p. 22).
A obra Vidas Secas é única porque, enquanto a literatura se ocupa da construção, seja do arco narrativo, seja dos personagens e da sua história, Graciliano Ramos se ocupa da desconstrução, do homem, da vida, da realidade. O mundo vai desabando lentamente, assim como a vida em sociedade. O único elemento que parece se construir, página a página, é a angústia da família.

Vidas Secas é uma obra densa em sua simplicidade. A escrita é leve, direta, fácil. Porém, quando se atenta aos detalhes, às entrelinhas, encontramos um dos livros mais importantes e reflexivos da literatura brasileira. Não é sem motivo que, através dessa obra, Graciliano tenha se imortalizado. O triste é perceber que, talvez, a sua análise seja sempre viva, pois a realidade degradante do Brasil também parece imortal.


Para acompanhar o enredo excelente, a Record preparou também uma incrível parte física. O livro conta com um posfácio ótimo, elucidando diversos pontos da obra. Temos também um bom trabalho gráfico, onde a diagramação é muito boa e confortável, fazendo com que a leitura seja ainda melhor. Para fechar, a obra também recebeu uma ótima revisão e trabalho editorial, no melhor padrão Record.
“Então por que um sem-vergonha desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na cadeia, dá-se pancada nele? Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a todas as violências, a todas as injustiças. E aos conhecidos que dormiam no tronco e aguentavam cipó de boi oferecia consolações: – Tenha paciência. Apanhar do governo não é desfeita” (p. 33).
Em suma, Vidas Secas é uma obra simples, mas densa; de aparente facilidade, mas complexa nas entrelinhas; é uma análise social crível, forte. Esta é uma obra obrigatória para todo leitor brasileiro, não por se tratar de um clássico, mas por se tratar de nós, das nossas vidas secas e angústias.



Comentários
24 Comentários

24 comentários:

  1. Quem não conhece este livro, não conhece nada de Literatura de verdade!
    Me recordo muito bem da história, mesmo tendo-a lido há tantos e tantos anos.
    Impossível não sentir a dor dos personagens, a fome, a indignação, a revolta e ao mesmo tempo, o amor entre a família. Que nas diferenças, acham forças para não desanimar e com isso, seguir em busca de novos tempos.
    Adorei essa nova capa e se puder, o terei na minha estante!
    Beijo

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  2. Oi Marcos!

    Infelizmente, não tive a oportunidade de ler este livro, mas gostei da sua resenha e o comentário da menina acima aqui, me deixou mais curiosa ainda! rsrsrsrsrs
    Vou adicioná-lo na minha lista de desejados e espero lê-lo em breve!

    Ótima resenha como sempre!
    Bjo bjo^^

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  3. Já tinha visto fala sobre esse livro claro, mas infelizmente ele não me interessou de jeito nenhum mas acredito que seja muito bom para quem gosta de clássicos.

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  4. Oi, Marcos!!
    Acho que li esse livro faz muito tempo!! Infelizmente não lembro de mais nada da história!! Acho que vou de que fazer uma nova leitura dessa obra!! Adorei a resenha!!
    BEijoss

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  5. Sou do tipo que não sabe ler muito bem nas entrelinhas sabe? rsrs
    Lembro que na escola minha professora favorita me indicou esse livro e comecei a ler, mas como todos os clássicos que tive nas mãos, não gostei muito e não cheguei a terminar. Tenho uma coisa com clássicos, é raro eu terminar um e mais raro ainda gostar de um deles.

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  6. Eu amo este livro, apesar de chorar litros com ele.
    Jamais conseguiria resenhá-lo. Seria uma choradeira só.

    Amei sua resenha ♥

    Bjks

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  7. Olá, Marcos.
    É triste mesmo ler obras como essa e ver o tempo passando e a situação continua a mesma, se não pior do que antes. Eu li esse livro tem um tempo já, e acho que por ter sido obrigada a ler, acabei não gostando tanto. Acho que se lesse hoje a minha visão seria diferente.

    Prefácio

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  8. é muito bom realmente, masa não é o meu preferido do autor. essa edição que leu é muito bonita. eu tenho uma edição bem antiga. beijos, pedrita

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  9. Oi Marcos! Eu amo Vida Secas, é um dos meus livro preferidos e não me canso de encontrar novos elementos na narrativa do Graciliano. Minha edição é outra, muito mais antiga, mas não duvido que o trabalho da Record tenha sido incrível! Adorei o post!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  10. Oi Marcos!!
    Li esse livro na escola para fazer trabalho e, desculpa falar, mas odiei... mesmo com toda as lições passadas e tal..
    Talvez tenha sido porque li por obrigação, mas não me apeguei a nenhum personagem e ao meio do livro já nao me importava o que ia acontecer com a familia kkkk
    Quem sabe este ano eu dê outra chance..
    Abraço.

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  11. Marcos!
    É é assim mesmo em algumas localidades do nosso sertão nordestino, a luta para sobreviver sem a água e sem condições, porque nossos políticos não se importam com eles.
    Graciliano retratou há décadas atrás uma realidade que persiste até hoje.
    Desejo um ótimo final de semana!
    “Um saber múltiplo não ensina a sabedoria.” (Heráclito)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de FEVEREIRO, livros + KIT DE MATERIAL ESCOLAR e 3 ganhadores, participem!

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  12. Li esse livro ainda na escola, pra um daqueles trabalhos..
    Havia me esquecido de como era denso e atrativo. Acho que vou acrescentar na lista de releituras!

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  13. Oi Marcos, lendo sua resenha agora me lembrei da época do ensino médio. Eu assisti ao filme e fiquei morrendo de dó da Baleia. Mas no geral, se trata de uma leitura diferente né, mas que no final das contas, vale a pena.
    Beijos
    [SORTEIO] Aniversário de 1 Ano: Livro - Perdida
    Quanto Mais Livros Melhor

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  14. Tá aí um clássico que posso dizer que gostei, porque na maioria das vezes eu morria de sono em todos o livros e tinha vontade de jogar eles pela janela . Foi um livro que me conquistou pelo fato que seus personagens eram tão verdadeiros que você sinta suas dores muitas vezes, até porque não tinha como não se tocar com a realidade deles.

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  15. Já li alguns clássicos da literatura brasileira, mas não chega a ser um dos meus tipos preferidos de livros. Mas essa já é a segunda resenha que leio de Vidas Secas, e nas duas vezes fiquei curiosa com a história, que com certeza é muito interessante, contando a vida de um brasileiro comum, pobre. Fiquei com ainda mais vontade de ler por você ter dito que é uma leitura simples, então acho que isso facilita pra leitores que não tem tanto costume com a literatura mais antiga.

    Abraços :)

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  16. É triste ver como uma história contada nos anos 30 seja vivida até hoje, quero ler esse livro porque não tenho costume de ler clássicos nacionais e uma leitura mais antiga, mas acho que esse será mais fácil porque a história infelizmente se repete até hoje e também acho legal sair desse mundo da fantasia, ler sobre coisas reais, pessoas comuns, diferenças sociais e a realidade, é bom parar e pensar em como nem todos temos uma vida tão boa.

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  17. Uou!!! Estava com saudades dessas resenhas maravilhosas 😍
    Nunca li o livro, mas depois dessa resenha vou correndo ler. É uma pena que a obra seja ainda tão atual. Eu sou uma pessoa otimista, mas as vezes fico com medo do lugar para onde estamos indo, voltando ou mesmo ficando.
    Um beijão
    profissao-escritor.blogspot.com.br

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  18. Oi!
    Gostei do enredo da obra, gostaria de conhecer a escrita já que sempre ouvi flar bem do autor, espero ler em breve!
    Bjs

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  19. Já li este livro e realmente é uma obra excelente, os personagens são tão sofridos, mas mostram a verdade nua e crua do nosso país, uma obra que continua atual. A cadela Baleia acabou com o meu emocional, todos mexeram comigo, mas com ela foi muito pior. Ótima resenha e dica.
    Abraço!
    A Arte de Escrever

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  20. Marcos,quando estava no 3° ano do ensino médio,meu grupo ficou encarregado de ler esse livro para apresentar depois e adivinha?! Ninguém leu rs,acabamos enrolando e lendo uns resumos pela internet e apresentando o trabalho mesmo assim kkk não me orgulho disso não,mas isso prova o quanto a escrita é crua,e como você mesmo demonstra na resenha,ele vai desconstruindo todo o sofrimento e a realidade,e ao mesmo tempo que isso é feito de forma simples,o tema é complexo,e não chega a ser atrativo p/ quem procura uma história linear e que tenha um enredo redondinho e um final feliz,por isso mesmo na época eu acabei lendo o comecinho e abandonei,achei bem crua a linguagem dele,e vi que era um livro para pensar,que com esse enredo em meio a seca ele insere questões políticas,morais,sociais...Enfim,na época eu realmente não conseguia digerir leituras assim,mas apesar de ainda não ser fã de literatura brasileira,atualmente estaria aberta mais aberta á esse tipo de leitura,ainda mais com essa ótima resenha de incentivo!
    Abraços.

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  21. Tive uma professora que resolveu fazer um resumo pra gente sobre essa história, porque devia saber que a maioria iria pesquisar coisas na internet e nem adiantava falar pra ler o livro. Ela destacou muitas coisas que acabaram despertando o interesse de ler. A história parece ser simples e angustiante ao mesmo tempo, fala de política, de dificuldades, passa bem a ideia da desigualdade e pelo jeito que ela contou fez a gente pensar em muita coisa que nem tinha ideia. Imagino então como seria ler. É uma história que é feita pra fazer pensar.
    Acabei não conseguindo pegar esse livro até hoje, mas algum dia espero poder conferir essa história. Vale a pena mesmo e é leitura obrigatória.

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  22. Li esse livro na época que ainda estava prestando vestibular, era obra obrigatória e estudei sua história e seu contexto de modo detalhado. Baleia fez-me chorar, era a animalização do ser humano e a humanização do animal de estimação.
    "Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás." Assim como tantos outros retirantes, assim como tantos sentimentos dentro de pessoas tão sofridas. A obra pode ser simples aos olhos de alguns, mas para mim, sempre será uma das maiores descrições. Graciliano Ramos conseguiu colocar em palavras muitos sentimentos!

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  23. Olá, li esse livro há muito tempo e foi um dos nacionais mais marcantes para mim, o autor descreve o clima de uma forma que podemos até sentir as angústias do personagens. A parte mais marcante para mim foi o fim da Baleia, exemplo de fidelidade. Beijos.

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